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ago

Casamento: email errado

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Mensagem ou email de spam
Tempos atrás publiquei em qualquer parte esse pequeno e, talvez, debochado fragmento:

“Ter um e-mail com um sobrenome comum (nogueira@***.com.br) pode ser uma boa ferramenta para aferir a inteligência das pessoas. Na última semana, por exemplo, comprei passagens de ida e volta entre Macaé e Itaperuna, pela 1001. Também tentei vender um Clio 1.0 completo que não é meu; matriculei um filho que não tenho em um colégio Objetivo em Santo André; estou a tirar carteira de habilitação em Buenos Aires e fiz uma reclamação na loja Conforama da comuna de Coignières, na França (já responderam); viajarei entre Belém e Manaus no dia primeiro e volto só no dia dezenove; ah, também recebi uma documentação farta (sim, vários documentos e um histórico de WhatsApp que não tinha nudes) para comprar um imóvel. Ainda no mercado imobiliário, tentei hipotecar uma casa em Charlotte, Estados Unidos. Estão oferecendo 900 mil dólares. Mas o cafofo está avaliado em 1,25 milhão. Acho que estão tentando me engabelar.”

Aí, esta semana, uma gaja chamada Lindaura, lá de Curitiba, me manda uma mensagem a perguntar sobre casamentos, sobre qual é o preço do completo e do parcial.

Essa pergunta me deixou realmente perplexo. Afinal, com o vagar do tempo toda a gente fica obsoleta e algo desinformada — ficamos velhos, catzo! E, enfim, conjecturei longamente o que seria essa coisa de ‘casamento parcial’: será que não tem sogros? Cunhados? ‘Sobrinhos por afinidade’ (aliás, que qualidade de gente indigesta!)?  Será, enfim, que o par de pombinhos apaixonados pode por cornos mutuamente sem rancores, ciúmes e desamores? Mas longo fiquei confuso com tantas e estranhas possibilidades acabando por responder a tal Lindaura.

Assim, com gravidade e polidez — conforme uma cerimônia nupcial o exige —, disse que meu endereço de email não é o correto destinatário. Afinal de contas não serei eu empatar o casamento e a felicidade ‘até que a morte os separe’ (embora o divórcio seja mais provável e certo — para felicidade geral da casta dos chicaneiros, togados ou não, escusado dizer). Por isto, mesmo considerando a enorme quantidade de mensagens equivocadas que recebo, costumo responder as mensagens que me parecem importantes ao equivocado remetente.

Entretanto, Lindaura enviou a mensagem para o mesmo endereço de email, o meu, mais uma vez. Mesmo depois de eu tê-la respondido a dizer que não era o destinatário certo e ela a ver o destinatário no cabeçalho da mensagem… Numa esperança incontida, talvez, ou pelas ânsias nupciais — talvez se trate de um casal encalhado que ‘resolveu esperar’ e, aos 41 anos, não se aguentam mais no celibato auto-infligido — resolvem me enviar a mensagem mais uma vez!

Talvez por mágica, por um movimento do Cosmo, do realinhamento das órbitas planetárias, mandar a mesma mensagem para o destino equivocado, isto é, para mim faria com que, enfim, a mensagem chegasse milagrosamente no endereço completo. Evidente que não chegou. Evidente que fiquei puto: a pessoa viu que a respondi e mesmo assim manda novamente a mensagem para mim. Aí resolvi troçar e, numa das quatro mensagens que trocamos — e não foram juras de amor, afinal, vai que o casamento fosse da modalidade parcial?

Docemente, respondi:

Estimada Lindaura,

  1. Não sou padre, bispo, presbítero, pastor ou juiz de paz. Logo estou impossibilitado na prática da celebração de casamentos.
  2. Não tenho parte com Santo Antônio ou com entidades sobrenaturais casamenteiras. E ainda por cima sou ateu.
  3. Por último: enviar várias vezes a mesma mensagem para o destinatário errado não fará com que ela, magicamente, chegue no destinatário correto.
  4. Essas mensagens não me fazem testemunhas do vosso casório. Quer dizer, se você mandar nudes, quem sabe a gente não casa? Estou encostado. E já tens meu telefone, ele foi na assinatura da primeira mensagem…

Escusado dizer que os impropérios que me foram respondidos são impublicáveis. Mas respondi a perguntar se eu porque sou ateu…


por  Nogueira  em  31/08/2018

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