Nogueira

por Nogueira   

É, eu sou o Norberto Nogueira. Até aí nada demais, não fosse um trafulha fazer um número de circo com o meu nome. Por isso sou sempre lembrado com um infame “Que bom, heim, Nogueira?”. É uma danação que piora por causa do Tavares, a divertir-se promovendo esse tipo de humor vil e injurioso. Desde então, basta alguém narrar algum fato acontecido, advindo de falta de sorte ou de fatalidade, da pouca inteligência alheia ou mesmo de história inventada, mesmo nos ermos mais distantes, para que se faça tão infame pergunta. Sem motivo qualquer, apenas para provocar o meu desgosto, alguns até me cumprimentam “Que bom, heim Nogueira?”. Quanta insolência.

Nogueira é um nome que indica ascendência judaica. E eu  — fato que gosto de alardear aos quatro ventos — sou um portentoso marrano de sétima geração. Cristão novo como sabe toda a gente. Mas isso não quer dizer que creia no falastrão com ares de hippie. Isto se deu por questão de conveniência nos negócios terrenos:  tanto pelas as razões de Estado portuguesas, quanto pelos humores de sua santidade, o Papa. António José da Silva que o diga.

Ainda que com todos esses infortúnios da religião, sem sequer ter feito a Brit milá em momento apropriado, tive de passar tempos em Auschwitz. As SS não eram dadas a sutilezas nos misteres da religião, tal como em quaisquer outros assuntos. Por isso, quando deparam comigo, na rua, no supermercado ou no boteco, logo na primeira vista, se vê logo que sou recém chegado de Auschwitz. Algo notório pela minha compleição física robusta.  E meu colossal nariz, afinal, não permite tergiversações a esse respeito.

Agora que o público ledor já sabe algo a respeito da magnânima figura que vos escreve, devem saber porque estou aqui a redigir missivas.

Juntei-me ao meu amigo Tavares para tentarmos fazer algo digno de nota para o mundo. Esta é a versão oficial do nascimento deste blog. Se o Tavares disser algo diferente disso, nada mais será que ideologia, dos planos secretos dele de dominar o mundo através da metafísica, com todos os seus malefícios e danifícios. Eu preferiria métodos usuais, com muito sangue, cadáveres e fumaça, mas é politicamente incorreto e dispendioso — e teria que ouvir protestos dessa gentinha pacifista, de longe o pior tipo de canalha esgueirar-se pela Terra.

Assim, depois de longos solilóquios e profundas conversas lubrificadas a de base cerveja, eu e meu amigo, Tavares, nos perguntamos: “de que adianta tantas brilhantes idéias, tanta sagacidade e argúcia se não se pode, enfim, contribuir?”, resolvemos dar início a este blog, convencidos de que o grande problema da civilização não são as mazelas sociais, a injustiça ou o egoísmo, mas sim a falta de inteligência. Ao contrário de outros povos, pensamos que a salvação da humanidade não passa pelo genocídio ou pelo terrorismo, mas sim pelo cataclismo ambiental.