12
mar

A arte do feijão gordo

— Rapaz, Thomas Mann publicou Os Buddenbrook aos vinte e seis anos. É um calhamaço de quase setecentas páginas! Como é possível?

— É, Joaquim, mas essas virtuoses não assim tão raras, veja Clarice Lispector, por exemplo, escreveu Perto do coração selvagem aos dezessete, é um trabalho fino, alta literatura, baseado no Joyce e se a memória não me trai no Retrato, com uma perspectiva muito similar. E tem mais, meu caro, Schopenhauer começa a escrever O mundo aos vinte e seis, publicando a obra quatro anos depois…

— E tem o Rimbaud… — diz Joaquim num tom agastado, se encolhendo.

— Oh, não, ele era um enfant terrible. Não se pode colocá-lo na mesma categoria de tais tipos, escreveu apenas uma época e depois não mais — emendou o Peixoto, num tom professoral, transparecendo alguma afetação.

— É, pelo que vejo, é melhor eu parar com tudo, até hoje escrevi ninharias…

— Ora Joaquim, deixe de pessimismo. Hobbes publicou o Leviatã com mais de sessenta… Saramago, então, produziu algo que prestasse com mais de cinquenta.

— Bah, queres me animar… Conheço-te.

— Nem por isso. Mas saiba que nenhum deles fazia um feijão gordo tão bom quanto o seu.

— Vejo que tu acalentas teus amigos apenas quando tens fome, puto.

— Não é o caso. O fato é que você fica aí tagarelando e eu aqui a definhando. Meta-se a cozinhar isso logo, homem!

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por  Nogueira  em  12/03/2011

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