Arquivo de março, 2011

12
mar

A arte do feijão gordo

por Nogueira em 12.mar.2011 | Tags:  , ,  

— Rapaz, Thomas Mann publicou Os Buddenbrook aos vinte e seis anos. É um calhamaço de quase setecentas páginas! Como é possível?

— É, Joaquim, mas essas virtuoses não assim tão raras, veja Clarice Lispector, por exemplo, escreveu Perto do coração selvagem aos dezessete, é um trabalho fino, alta literatura, baseado no Joyce e se a memória não me trai no Retrato, com uma perspectiva muito similar. E tem mais, meu caro, Schopenhauer começa a escrever O mundo aos vinte e seis, publicando a obra quatro anos depois…

— E tem o Rimbaud… — diz Joaquim num tom agastado, se encolhendo.

— Oh, não, ele era um enfant terrible. Não se pode colocá-lo na mesma categoria de tais tipos, escreveu apenas uma época e depois não mais — emendou o Peixoto, num tom professoral, transparecendo alguma afetação.

— É, pelo que vejo, é melhor eu parar com tudo, até hoje escrevi ninharias…

— Ora Joaquim, deixe de pessimismo. Hobbes publicou o Leviatã com mais de sessenta… Saramago, então, produziu algo que prestasse com mais de cinquenta.

— Bah, queres me animar… Conheço-te.

— Nem por isso. Mas saiba que nenhum deles fazia um feijão gordo tão bom quanto o seu.

— Vejo que tu acalentas teus amigos apenas quando tens fome, puto.

— Não é o caso. O fato é que você fica aí tagarelando e eu aqui a definhando. Meta-se a cozinhar isso logo, homem!



7
mar

Estupidez para o Nobel da Paz

por Nogueira em 07.mar.2011 | Tags:  , , ,  

Se nerds italianos da revista Wired defendem a Internet, é legítimo defender a estupidez nas suas variadas formas, da idiotice pura e simples à burrice, daí para os mais altos patamares de cretinice até chegarmos ao arquétipo ideal do estúpido. Ora, poderão objetar que a estupidez é abstrata, que é uma mera ideia.

Ora, não é este o caso: o fato é que a Internet não é humana, tampouco é uma instituição, não há quem possa representá-la. A internet é similar às redes de transmissão elétrica: uma coisa enorme, multifacetada e amorfa, uma ferramenta humana tal e qual os sistemas de oleodutos e gasodutos existentes mundo afora. Só que a internet não é apenas um conjunto de cabos ou de tubos que visam distribuir algo, energia elétrica, óleo combustível ou gás. Para além dos cabos, há servidores, sítios, comunicação ponto a ponto, e os usuários enviando e produzindo dados: é uma rede de distribuição com múltiplos fluxos. É algo mais amorfo, mas definível, pois é possível dizer como funciona, quais são suas partes. Mas não é possível lhe dar forma ou personalidade, não é uma instituição, ela não será jamais personificada.

E o mesmo sucede com a estupidez. Por mais que ela seja comum — afinal, nosso vizinho, chefe, sogra, etc., podem ser tremendos imbecis — ela não tem um ente que a represente legitimamente. Não há o estúpido ideal em carne e osso, embora possamos elencar um vasto número de canditados ao posto, não é possível chegar à estupidez em termos concretos, isto é, em uma pessoa que a represente sem margem para a dúvida. E com a internet segue-se algo parecido.

Daí que a proposição “Estupidez para o Nobel da Paz” é legítima. Na verdade, muito mais legítima — mesmo considerando que ambos os candidatos tenham algo de surreal—, afinal de contas a internet existe há pouco tempo, coisa de quinze, vinte anos ano máximo. A estupidez não. Acompanha os humanos desde que éramos quadrúpedes. Tem muito mais história e representatividade, esteve presente em todos os momentos cabais da história da humanidade, e não precisamos ir longe: imagine se Hitler não fosse um tremendo imbecil em termos de estratégia? Os nazistas poderiam ter ganhando a Segunda Guerra! Temos então um argumento insuperável em favor da estupidez contra a internet.

É fato: ela foi indiscutivelmente muito mais importante para a paz mundial.  O que também é indiscutível é o caráter nonsense da indicação ao prêmio Nobel. E parece que ninguém percebeu, pela quantidade de resultados de pesquisa no Google da sentença “internet indicada ao prêmio Nobel da paz”, o insólito da indicação.