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mar

Por que não te calas?

Por que não te calas?

Todas as gentes falam, dirigem-se  umas às outras o tempo inteiro em variados contextos, de variadas maneiras, tons e volumes. E mesmo quando estão sós, pensam em outras que não elas mesmas; os devaneios  íntimos de tantos Josés e Marias sempre têm um quê dirigido ao outro: pensam em como fazer boa figura, no galanteio a dar na colega do trabalho, na peça a pregar num desafeto,  na possível javardice com uns tipos ou tipas vistosos. E isso a dar-se a todo tempo desde que a espécie humana anda pela Terra.

Ou melhor, fala. O tempo todo.

E não há na natureza animal melhor apetrechado para comunicar-se que o homem. Alguns zoólogos metidos a besta dizem que as baleias têm uma linguagem complexa, talvez mais que a humana. Sandice. Baleias não têm repertório, por mais que seus esturros sejam tonitruantes. Vão falar de quê? Sobre camarões, pesqueiros japoneses e arpões? Tubarões e arenques? Quiçá mexilhões.  Os humanos, ah, não. Uma mocinha coquete tricota com as amiguinhas sobre o sucesso do batom novo, omitindo, é claro, o decote acintoso. O sujeito cabotino jacta-se com seus comparsas sobre suas incontestáveis habilidades  nas cartas. O advogado tergiversa sobre como ele saiu-se bem no tribunal com seus companheiros de chicanas, ainda que na verdade tenha sido espicaçado pelo juiz por um mero erro gramatical na mais simples das petições.

A esplendorosa baleia, no entanto e mesmo a nadar no Atlântico, não sabe o que é um dois de paus, um batom Mac ou que quer que venha ser a lei, juízes ou chicanas. Não falam ou  vocalizam nada a respeito de tais temas, não sabem o que é isso e mesmo que soubessem estar-se-iam nas tintas. Seja lá qual for o motivo para esturrarem, é fato que o urro não pode ter mais significado que uma bem elaborada farsa. Ao menos se pode ter a alentadora certeza de que é bastante improvável uma jubarte dizer sandices. O mesmo, no entanto, não pode ser dito sobre os humanos.

Ao contrário dos cachalotes, os humanos o tempo inteiro falam: quando dormem, comem — o único animal sobre a Terra com essa  exasperante habilidade  —, trepam, correm, andam, nadam, morrem — além de ser o único que nasce zurrando histericamente ou chorando, como dizem os mais sensíveis. Entre os humanos, mesmo aqueles inabilitados para o falar e ouvir, falam.  Dentre os que não são moucos ou mudos, uns são, teoricamente, menos loquazes, outros mais. Os menos expansivos são chamados de introvertidos e, teoricamente,  falariam pouco; os mais facundos são os extrovertidos e seriam muito mais tagarelas. Advoga-se por aí muito dos atributos e inquestionáveis qualidades de cada tipo, como se efetivamente um tipo falasse mais e o outro menos.

Certamente o mais incompreensível é o introvertido. Num primeiro momento, essa cepa de gente não fala, não diz nada e parece estar a fugir de algo. A um desconhecido logo se tem a impressão de se tratar de um surdo ou dum mudo. E é quase impossível fazê-lo comunicar-se com um estranho. Nesses tempos modernos, porém, é comum ter de lidar com desconhecidos sem ter de, para felicidade geral de todos, entravar conversas ou dizer amenidades — nisso o introvertido é mestre. E é uma vantagem: se pode lidar com tais tipos sem a menor necessidade de dizer, por exemplo, “bom dia”. E no trabalho até há um ganho de produtividade.  E é comum seus focinhos terem uma expressão ora atarefada, ora apressada. Alguns pensam e dizem que se trata de um tipo “reservado”. Qual nada! Estão em desesperada fuga, a correr para bem longe de conversas com estranhos.

Mas no trabalho, ao se  dividir o mesmo escritório com um introvertido nos primeiros dias ou semanas, ele raramente dirá alguma coisa. Se conseguir dizer “bom dia”, o fará desconforto e às vezes chegará a se portar como quem se contorce de dor ao dizê-lo. Com o passar dos tempos ele conseguirá falar coisas para além do trabalho. É aí que se perceberá que “introvertido” é um termo de significado duvidoso, pois quando o introvertido consegue alguma intimidade com quem quer que seja, ele passa a falar de maneira descontrolada. A única forma de impedir tal infortúnio consiste em dirigir-se a ele num tom alto e seco, beirando a grosseria, e sempre a pedir que ele repita o que foi dito enfatizando que se deve falar mais alto. O efeito é magistral: alguns deles se portarão como se estivessem a ser chicoteados. Método eficaz e seguro — e para os adeptos do sadismo é garantia de diversão.

Já com os extrovertidos, as coisas seguem de outro modo. Tais indivíduos têm enorme dificuldade de se manterem calados.  O que é até certo ponto bom para que os desafortunados se livrem deles, pois isso os torna facilmente detectáveis, mesmo ao longe. A vários metros de distância é possível reconhecê-los dada alta voz, afinal, despidos de qualquer noção, essa gente zurra escandalosamente. Para além do escarcéu sonoro,  o movimento frenético dos maxilares, enquanto falam, é característico, o que os torna ainda mais fáceis de serem avistados. Mas isso não torna simples evitá-los. Extrovertidos são falantes tenazes. Desviar o caminho ou fingir que não viu, não funciona, pois eles chamarão alto, bem dizer a gritar, e não se darão por vencidos por um simples “fingi que não vi”. Oh, não. Se colocarão no encalço e berrarão  pelo seu interlocutor — vítima soaria melhor nesse caso — até o pobre-diabo dar-se por vencido. Daí que “evitá-los” não é a atitude ideal; pôr-se em fuga é o melhor a fazer. Em passos rápidos ou mesmo a correr desembestadamente, mesmo que isso não garanta a paz, pois, graças à tenacidade verborrágica, eles continuarão a perseguir o infeliz aos berros.

Um simples diálogo entre dois extrovertidos é como uma histérica e altissonante  discussão. Deve-se, portanto, tomar muito cuidado e nunca atiçar um extrovertido; nesses casos, uma conversa pode tomar a forma de uma acalorada pregação evangélica ou, talvez, de um discurso de fazer inveja a Fidel. E os desavisados devem se precaver de nunca comentar nada acerca de suas próprias vidas privadas. Falantes por excelência são, como é de se esperar, o tipo mais fofoqueiro que há. A vida dos outros para ele é motivo de verdadeiros tratados. Suas suposições são venenosas e implacáveis, para além de terem um encadeamento lógico terrificante: a reputação do mais beato dos tipos desmancha-se como um castelo de cartas ao vento. Sequer a santidade do Papa é à prova da língua virulenta dessa gente, ainda que, provavelmente, o maior extrovertido de todos os tempos tenha sido Jesus Cristo.

Ao fim e ao cabo, a humanidade é dividida entre aqueles que teoricamente falariam pouco ou muito.  Uma quimera aborrecida, pois se viu que ambos falam em igual medida, apenas variando em contexto e grau de psicopatia — e Jung tem a maior parcela de culpa nisso, antes a humanidade era feliz até que Jung os inventou. E, para ser ver com clareza o tamanho da culpa de Jung, não há aqueles que falam na exata medida, isto é, apenas quando chamado a falar ou quando tem algo relevante a falar. Esse tipo de gente não existe e se existiu provavelmente morreu na última glaciação. Dizem alguns que os Neandertais talvez não fossem aptos para fala articulada. Não é de impressionar que tivessem o cérebro maior que o Homo sapiens sapiens. E a evolução da humanidade desde o surgimento deste último é um retrocesso verborrágico.

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por  Nogueira  em  23/03/2010

2 Respostas para “Por que não te calas?”

  1. Camila Lobato Rajão Disse:

    Aposto que até o Jonas dentro da baleia fala pelos cotovelos!
    E do lado de fora, as baleias sofrem e se ressentem, afinal não podem criar, mentir, protestar, fazer poesias, cantar a beleza, espalhar o caos e a discórdia.

  2. Norberto Nogueira Disse:

    Mas que menina subversiva. É por isso que o Oriente Médio não vai pra frente.

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